Um mapa nunca mostra tudo.
Essa talvez seja a primeira coisa que precisamos lembrar quando olhamos para uma imagem bonita, colorida e aparentemente objetiva do espaço. Um mapa mostra ruas, rios, bairros, limites, áreas verdes, zonas de risco e manchas urbanas. Mas ele também escolhe o que mostrar, como mostrar e o que deixar de fora.
Todo mapa é uma seleção.
Há sempre uma escala, uma legenda, uma cor, uma base de dados, uma projeção, uma classificação, um recorte e uma intenção. Por isso, um mapa não é apenas uma representação do território. Ele também produz uma forma de olhar para o território.
O mesmo acontece com as máquinas usadas para produzir mapas. Softwares de geoprocessamento, bancos de dados, imagens de satélite, sistemas operacionais, códigos, algoritmos e interfaces não são ferramentas neutras. Eles participam da maneira como o espaço é lido, organizado e interpretado.
É nesse intervalo que nasce a ideia de estar “entre mapas e máquinas”: investigar como mapas, dados, softwares e códigos participam da produção do conhecimento espacial.
A pergunta, portanto, não é apenas: “o que este mapa mostra?”. Também é preciso perguntar: “como ele foi produzido?”, “com quais dados?”, “por quais escolhas técnicas?”, “com quais limites?” e “que modo de ver o mundo ele ajuda a construir?”.
Máquinas de ver
Quando pensamos em máquina, quase sempre imaginamos um objeto: computador, impressora, drone, satélite, GPS ou servidor. Mas a máquina pode ser pensada de modo mais amplo.
Para Deleuze e Guattari, máquina não é apenas equipamento mecânico. Máquina é conexão, funcionamento, fluxo, corte, acoplamento e produção. Uma máquina nunca está sozinha. Ela se liga a outras máquinas, produz efeitos, organiza relações e participa da vida social.
Uma cidade, por exemplo, também funciona como uma máquina: ruas, leis, redes de transporte, moradias, cadastros, mercados, mapas, memórias, conflitos e instituições se conectam continuamente. Um Sistema de Informação Geográfica também funciona assim: reúne dados, projeções, formatos, camadas, classificações, simbologias, normas técnicas, instituições e usuários.
O mapa final é apenas a parte visível de uma rede muito maior.
Por isso, podemos pensar as geotecnologias como máquinas de ver. Elas ampliam nossa capacidade de observar o território, revelando padrões que muitas vezes não aparecem a olho nu: expansão urbana, desmatamento, desigualdade socioespacial, áreas de risco, distribuição de equipamentos públicos, mudanças no uso da terra e vulnerabilidades ambientais.
Mas esse olhar não é direto. Ele passa por sensores, imagens, bases de dados, resoluções espaciais, modelos, algoritmos e decisões humanas. A imagem de satélite não é o território. O banco de dados não é a cidade. O mapa temático não é a realidade em si.
Todos são mediações.
O problema não está na mediação. Todo conhecimento precisa de mediações. O problema começa quando esquecemos que elas existem e passamos a tratar o mapa como se fosse o próprio mundo.
O mapa organiza o visível
Mapas têm força porque organizam o visível.
Eles podem revelar desigualdades, orientar políticas públicas, identificar riscos ambientais, registrar conflitos e dar visibilidade a territórios esquecidos. Mas também podem simplificar demais, ocultar populações, transformar experiências vividas em categorias abstratas ou apresentar como neutras decisões que são técnicas, políticas e sociais.
Uma área chamada de “vazio urbano” pode estar cheia de usos, memórias e disputas. Um bairro classificado como “irregular” pode ser, para seus moradores, lugar de pertencimento, trabalho e vida cotidiana. Uma mancha colorida no mapa pode representar renda, risco ou vulnerabilidade, mas por trás dela existem pessoas, histórias e relações concretas.
Por isso, mapear exige responsabilidade.
Não basta produzir mapas bonitos. É preciso perguntar o que eles tornam visível, o que deixam de fora e quais interpretações ajudam a construir.
Essa questão se torna ainda mais importante em um tempo atravessado por dados. Cidades são planejadas com bases georreferenciadas. Áreas de risco são delimitadas por modelos. Políticas públicas são acompanhadas por indicadores. Aplicativos orientam deslocamentos. Cadastros definem quem aparece oficialmente para o Estado.
A informação territorial não apenas descreve o mundo. Ela também participa da organização do mundo.
Um cadastro incompleto pode tornar populações invisíveis. Um mapa de zoneamento pode valorizar ou desvalorizar áreas. Uma classificação técnica pode transformar conflitos sociais em categorias administrativas. Um algoritmo pode orientar decisões sem que seus critérios sejam plenamente compreendidos.
É aqui que mapas e máquinas se encontram.
O mapa traduz relações espaciais em linguagem visual. A máquina organiza os procedimentos que tornam essa tradução possível. Entre ambos, há dados, códigos, escolhas, instituições, técnicas e sujeitos.
Entre mapas e máquinas
Pensar entre mapas e máquinas é reconhecer que a técnica não é apenas ferramenta. Ela também produz modos de ver, pensar e agir sobre o território.
Esse olhar não rejeita a tecnologia. Ao contrário: leva a tecnologia a sério.
Levar a técnica a sério é abrir sua caixa-preta. É entender como os dados são produzidos, como os softwares funcionam, como os mapas são construídos e como as interfaces orientam nossas escolhas. É perceber que todo mapa carrega uma visão de mundo, mesmo quando parece apenas técnico.
Em um tempo cada vez mais mediado por dados, plataformas, imagens e sistemas digitais, compreender como as máquinas fazem ver o território tornou-se uma tarefa fundamental.
Entre mapas e máquinas há um campo de investigação: o lugar onde a Geografia encontra o código, onde a cartografia encontra a computação, onde o território encontra a informação e onde mapear deixa de ser apenas representar para também produzir mundo.
Referências
CRAMPTON, Jeremy W.; KRYGIER, John. An introduction to critical cartography. ACME: An International Journal for Critical Geographies, v. 4, n. 1, p. 11-33, 2005.
DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia. São Paulo: Editora 34, 1995.
DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. O anti-Édipo: capitalismo e esquizofrenia. São Paulo: Editora 34, 2010.
HARLEY, J. B. Deconstructing the map. Cartographica, v. 26, n. 2, p. 1-20, 1989.
KITCHIN, Rob; DODGE, Martin. Code/Space: Software and Everyday Life. Cambridge: MIT Press, 2011.
SANTOS, Zamara Araujo dos. Entre máquinas: a produção maquínica de Deleuze e Guattari. Revista Trágica: estudos de filosofia da imanência, Rio de Janeiro, v. 14, n. 2, p. 55-73, 2021.
12 de Junho de 2026 – Alan A. Alievi

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